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Biografia

Este artigo foi originalmente publicado no jornal O Município, como parte da série de biografias intitulada “História de São João da Boa Vista”.

Rodrigo Rossi Falconi*

ORIGEM

Fernando Furlanetto nasceu no dia 5 de março de 1897, em São João da Boa Vista, e era filho de Antonio Furlanetto e Maria Prisca Lanfranchi.

Seu pai nasceu no dia 1º de janeiro de 1873, em Treviso, Itália, e partiu para o Brasil, atraído pelas inúmeras possibilidades de progresso que a América então oferecia. Após desembarcar no Porto de Santos e se dirigir à capital paulista, decidiu com a esposa instalar-se no interior do estado de São Paulo.

Em São João da Boa Vista, Antonio Furlanetto dedicou-se a arte de confeccionar e instalar túmulos no cemitério local, tendo falecido na cidade que adotou como sua, no dia 7 de fevereiro de 1950.
Maria Prisca Lanfranchi nasceu em Verona, também no norte da Itália, no dia 18 de janeiro de 1879, e faleceu no dia 29 de fevereiro de 1964, em São João da Boa Vista.

Na casa da família instalada em uma chácara nos altos da cidade (hoje Vila Loyola) nasceram os cinco filhos do casal: Fernando Furlanetto; Jácomo Furlanetto (empresário e escultor), que casou com Aurora Villela Bandeira, com quem teve dois filhos – João Batista Furlanetto (agro-pecuarista) e Antonio Manoel Bandeira Furlanetto (contador); Maria Ernestina Furlanetto, que casou com Norberto Barbieri (músico), com quem teve três filhas – Doll Furlanetto Barbieri (falecida precocemente), Ilian Furlanetto Barbieri e Maria Lúcia Furlanetto Barbieri; Ignez de Paula Furlanetto, solteira; Romeu Furlanetto (médico), que casou com Djanira Ribeiro (pianista), sem descendentes; e Paulina Julieta Furlanetto, que casou com Durval Teixeria Branco, sem descendentes.

Os dois primeiros filhos decidiram seguir os caminhos do pai, e partiram para a Itália a fim de adquirir os conhecimentos necessários para a arte da escultura.

FORMAÇÃO

Fernando Furlanetto iniciou sua formação fundamental no Grupo Escolar “Coronel Joaquim José”, de sua terra natal.

Aos quatorze anos de idade, em 1911, acompanhando a Família Gianelli, partiu para a Itália, onde permaneceu sob cuidados da Família Tonetti, tendo estudado na Scuola di Belle Arti “Satagio Stagi”, de Pietrasanta, na Toscana.

Conviveu com grandes artistas que durante oito anos ensinaram-no a expressar o seu talento com o escopo e o buril.

Foi aluno de grandes mestres, como: Ottavio Papini (professor de arquitetura), de Florença; Guglielmo Romiti (professor de anatomia), de Pisa; Antonio Bozzano (professor de escultura), de Genova; e Oreste Paoli (mestre em mármore).

Em 1915, Fernando Furlanetto conquistou o primeiro-prêmio, uma medalha de prata, no terceiro ano do curso comum, na disciplina “Decorazione Pittorica”.
Um ano depois, já estava trabalhando no atelier do escultor Ferruccio de Ranieri, em Pietrasanta. Na época, foi elogiado como “valente artista americano”, na revista italiana “Lo scultore e il Marmo”, de 15 de fevereiro de 1916.

As encomendas que seu pai fazia ao atelier de Ranieri eram executadas pelo próprio Fernando Furlanetto, principalmente os retratos. Entres os exemplos estão os medalhões do túmulo de Maria Umbelina Azevedo Oliveira e de Alzira e Amadeu de Oliveira. Todos eles foram feitos em mármore alabastrino, material translúcido e compacto, ideal para este tipo de trabalho.
Durante o curso destacou-se tendo recebido, além da medalha, diplomas de louvor, honrarias incomuns a um estrangeiro em uma terra pródiga de artistas.

A saudade fizeram-no voltar ao Brasil, com vinte e dois anos de idade, tendo, retornado ao território europeu para casar-se com sua primeira esposa, de nacionalidade italiana.

FAMÍLIA

Fernando Furlanetto casou no dia 26 de dezembro de 1921, em Viareggio, Itália, com Lélia Ranieri, nascida no dia 21 de maio de 1902, em Lucca, Itália.

Deste casamento nasceram dois filhos: Maria Lina Furlanetto (professora), que casou com Laércio Romano (político e chefe do Centro de Saúde de Casa Branca), com quem teve três filhos – Fernando Furlanetto Romano (comerciante), José Renato Furlanetto Romano (médico) e Lélia Maria Furlanetto Romano (professora); e Antonio Furlanetto Neto (comerciante), que casou com Carmem Peres (professora), com quem teve duas filhas – Maria Lélia Peres Furlanetto (bioquímica) e Maria Rita Peres Furlanetto (bioquímica).

Em uma viagem de automóvel à cidade de São Paulo, Lélia Ranieri Furlanetto sofreu um grave acidente, vindo a falecer em 8 de maio de 1941.

Fernando Furlanetto casou em segundas núpcias no dia 27 de fevereiro de 1949, no município de Rio Claro, com Mercedes Beozzo.

Sua segunda esposa, filha de Ana e Mário Beozzo, nasceu no dia 24 de setembro de 1909, em Rio Claro, e teve sete irmãos: Oscar, Eduardo, Modesto, Oswaldo, Maria de Lourdes, Albino e Dorival. Estudou no Grupo Escolar “Coronel Joaquim Salles” e, aos vinte anos de idade, casou com Arthur Goettcher. A família possuía fábrica de cordas e depósito de cereais, mas com a crise na lavoura de café, tiveram que vender tudo e mudaram-se para Matão, onde estabeleceram-se com comércio e obtiveram êxito. Por motivo de saúde do esposo, voltaram para Rio Claro e atrás de um clima melhor transferiram-se para São João da Boa Vista, em fevereiro de 1941. Abriram uma loja na rua Saldanha Marinho, especializada em retalhos, que fez muito sucesso. Tal situação durou pouco tempo, pois Arthur faleceu em setembro do mesmo ano, devido a uma grave pneumonia. Como seu negócio prosperava, decidiu permanecer na cidade e foi apresentada pelos futuros enteados, Antonio e Maria, ao escultor Fernando Furlanetto, também viúvo, com quem casou.

Do casamento entre Fernando Furlanetto e Mercedes Beozzo Furlanetto nasceu uma filha: Ana Lucia Furlanetto (dentista), que casou com Sérgio Prado Galuppo Filho (dentista), com quem teve um filho – Fernando Furlanetto Galuppo (estudante de direito).

ATIVIDADE PROFISSIONAL

Tão logo retornou à sua terra natal, Fernando Furlanetto começou a brilhar, principalmente no Cemitério Municipal onde a grandeza de suas obras em mármore passaram a modificar a fisionomia do local.

Em pouco tempo seus trabalhos ganharam projeção e espalharam-se por toda a região.
Uma das primeiras encomendas que recebeu quando passou a trabalhar em São João da Boa Vista foi um busto de Gabriel José Ferreira, para substituir uma cruz que culminava o túmulo da família. Teve que enfrentar muitas dificuldades, oriundas da falta de uma fotografia adequada e conseguiu, com esforço e habilidades raras, reproduzir com exatidão a imagem do respeitável cidadão. Os traços principais da fisionomia foram obtidos com felicidade, de modo que a impressão do conjunto foi magnífica e verdadeira.

Os túmulos de Angelina Oliveira Bueno e sua filha Dina Benvinda, bem como o do Cel. Joaquim Cândido de Oliveira, foram duas concepções grandiosas. Ainda não estavam completamente prontos em 1926, mas a revista “Guararapes” já reputava os dois monumentos como obras-primas da família Furlanetto. No caso do primeiro, que ele considerava realmente sua obra-prima, os retratos ficaram perfeitos e a emoção é latente. Já no segundo, a alegoria “Bondade” rima com as expressões das figuras.

Entre os retratos existentes no Cemitério Municipal de São João da Boa Vista, executados pelo escultor Fernando Furlanetto, estão: Henrique N. Rehder, Joaquim Cândido de Oliveira, Manoel Villela de Carvalho, Maria Umbelina de Azevedo Oliveira, Joaquim Thereziano Vallim, Boanerges Ferreira, Alzira Junqueira de Oliveira, Amadeu de Oliveira, Pedro Salomão, Victor Manoel de Andrade Dias, Francisco Palma e Paulo da Silva Dias (Medalhões); Gabriel José Ferreira (Busto); Alfredo Pirajá, Chiquinho Silva Dias, Angelina de Oliveira Bueno, Dina Benvinda (Estátuas); e Marianna Villela Costa (Alto Relevo).

Como só retratou pessoas falecidas, teve que se basear em fotografias, muitas delas de má qualidade, de difícil compreensão. A tridimensionalidade era obtida por méritos próprios. Até a cor dos olhos era sugerida pelo grau de profundidade das pupilas. Nenhum detalhe era esquecido: unhas, fio de cabelo ou bigode, rugas, asperezas e estamparia dos tecidos, encaixe dos óculos, prendedor de gravatas, broches, correntes e medalhinhas.

Apesar de todo o talento, sua vida foi sempre muito difícil, pois além da mão de obra, o material que trabalhava era muito caro (mármores importados), e não havia retornou financeiro.
Recebeu inúmeros convites para levar sua arte para outros Estados, onde haveria mais compensação financeira, mas sempre recusava dizendo: “Eu não saio do meu São João”, cidade que era tudo para ele.

Fernando Furlanetto foi um retratista excepcional, mas esta habilidade teve pouco espaço em São João da Boa Vista, tendo deixado apenas dois bustos fora do cemitério (do Padre Josué Silveira de Mattos e do Dr. João Baptista de Figueiredo Costa).

OUTRAS ATIVIDADES

Em 1939, Fernando Furlanetto foi escolhido para o cargo de Mordomo da Santa Casa de Misericórdia “Dona Carolina Malheiros”, ao lado de Romildo Silva, na diretoria que teve como Provedor o Capitão Ângelo Pires Cardoso, ao lado de outros abnegados cidadãos: Capitão Vespasiano Albuquerque (Tesoureiro); Dr. Palmyro Ferranti (Secretário); Dr. Alípio Noronha, Dr. João Baptista Figueiredo Costa, Dr. Anor Aguiar, Abel Silva, Dr. José Procópio do Amaral, Gabriel Antakly e Dr. Roque Fiori (Mesários); Dr. Waldemar Ferreira, José Gomes Guimarães, José Vieira, Odilon Santiago e Capitão Procópio do Amaral Pinto (Suplentes).

Nesta diretoria foi aprovada a compra de um novo aparelho para radiografias, bem como discutiu-se a necessidade de construção de um novo prédio para o hospital.

Fernando Furlanetto foi substituído no cargo, em 1941, pelos Drs. Joaquim José de Oliveira Netto e Palmyro Ferranti, na diretoria que teve como Provedor o Dr. José Procópio do Amaral.

ÚLTIMOS ANOS

Em 1971, Fernando Furlanetto teve que interromper sua atividade de escultor, devido a um glaucoma, que o estava fazendo perder a visão. Ficou muito abatido, porque além de não poder mais exprimir sua arte, não fez qualquer trabalho para sua filha. Sua última escultura foi o busto do Dr. João Baptista de Figueiredo Costa, em frente à Santa Casa de Misericórdia.
No final de sua vida, passou por graves problemas financeiros e sua família não tinha sequer condições de pagar as despesas hospitalares. Graças ao auxílio de um amigo, que pertencia à Diretoria da Santa Casa, puderam saldar as dívidas com um prazo maior.

Fernando Furlanetto faleceu em São João da Boa Vista, no dia 20 de abril de 1975, pouco tempo depois de completar 78 anos de vida.

Sua esposa, Dona Mercedes Beozzo Furlanetto faleceu no dia 16 de novembro de 2001, em São João da Boa Vista, aos 92 anos de idade.

HOMENAGENS

Poucos antes de falecer, Fernando Furlanetto pediu que a esposa destruísse todos os seus trabalhos de gesso, que se encontravam no seu galpão de trabalho. Dona Mercedes, felizmente, não teve coragem de realizar o que lhe pediu o companheiro, e, por sugestão do amigo e artista plástico José Marcondes, doou a maioria deles para escolas da cidade, perpetuando a memória do grande escultor para gerações de sanjoanenses.

Como reconhecimento por sua contribuição para a arte de São João da Boa Vista, a Prefeitura Municipal passou a atribuir o nome de Rua Fernando Furlanetto a uma das vias públicas da cidade.
Além disso, recebeu uma bela homenagem com a inauguração de seu busto em bronze, na Praça Cel. José Pires.

Em 1997, o arquiteto Antonio Carlos Lorette foi o responsável pela iniciativa, projeto, montagem e divulgação da Exposição “Centenário de Fernando Furlanetto”, com apoio do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal e do Museu de Arte Sacra da Diocese de São João da Boa Vista. Tal exposição de esculturas do artista sanjoanense deu origem à “Semana Fernando Furlanetto”, criada por decreto municipal, realizada anualmente e considerada como uma das mais importantes exposições de artes plásticas no interior do Estado de São Paulo.

AGRADECIMENTOS

Os mais sinceros agradecimentos ao arquiteto Antonio Carlos Rodrigues Lorette, por ter fornecido todos os materiais e informações indispensáveis para a elaboração deste artigo.

*Rodrigo Rossi Falconi: Médico, Membro-Fundador da Sociedade Brasileira de História da Medicina e membro da Associação Brasileira de Pesquisadores em História e Genealogia, Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e Academia de Letras de São João da Boa Vista (cadeira 42 – Patrono Dr. Oswaldo Cruz).

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