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Furlanetto

Fernando Furlanetto 01
Fernando Furlanetto em seu atelier (1919)
Foto: José Caiat

São João da Boa Vista possui um dos mais belos cemitérios da região. Entre alamedas arborizadas, estão reunidas obras-primas do maior escultor sanjoanense, Fernando Furlanetto. É uma galeria de arte a céu aberto, um patrimônio cultural, que a ação do tempo e a inconsciência das pessoas insistem em deteriorar.

A história tratou de ordenar os fatos para um destino acidental. O jovem italiano Antonio Furlanetto trabalhava numa marmoraria paulistana. Ao se casar, pretendeu montar seu próprio negócio e foi aconselhado a mudar-se com a família para Poços de Caldas, estância hidromineral com vários prédios em construção. Juntou ferramentas, algumas placas de mármore, associou-se a seu irmão e partiu de trem em direção à Mogiana. Ao percorrer o ramal Caldas, o eixo do trem quebrou-se próximo a ponte da futura Esportiva Sanjoanense.

O conserto demoraria horas. Na espera, os Furlanetto decidiram conhecer a pequena cidade. Caminharam sobre trilhos, atravessaram o saguão da estação e subiram a Rua São João. Entraram na Igreja Matriz, reconstruída em 1890, ornada com simples altares e imagens de madeira. Seguiram em direção à avenida, entraram no velho cemitério da Praça Joaquim José. Estava abandonado, aguardando seu desmonte. Viram alguns túmulos de pedra encomendados em Campinas e São Paulo. São João enriquecia vertiginosamente, conforme o número de pés de café. Incrível, nenhuma marmoraria concorrente… Resolveram ficar, instalando a Marmoraria Sanjoanense em 1896, no começo da Avenida Dona Gertrudes (atual Relojoaria Dattoli).

Capela funerária Christiano Osório
Capela funerária de Christiano Osório (1940)
Foto: Ismael Lopes

Para ajudar nos complexos relevos ornamentais, Antonio se associou ao escultou italiano Giuseppe Zarri, parceria que durou de 1896 a 1901. Porém, a estuária de arremate dos túmulos continuava importada da Itália, do Atelier Ranieri de Pietrasanta.

Fernando Furlanetto nasceu em 5 de março de 1897, no chalé construído pela família numa chácara que mais tarde pertenceu aos Loyola. Era o primogênito de Maria Prisca Lanfranchi e Antonio Furlanetto. O talento despontara já na infância, em desenhos caprichosos realizados na sala de aula do Grupo Escolar “Joaquim José” e na astuta observação dos anjinhos de mármore, engradados em pino europeu. O jovem queria ser escultor. Em 1911, com apenas 14 anos, Fernando partiu para a Itália, para estudar no Instituto de Belas Artes de Pietrasanta. Foi junto ao seu irmão Jacomo, que se especializou em ornamentação.

Durante oito anos, Fernando aprendeu a arte de esculpir com os mais famosos professores da época. E o “menino americano” suplantou, em técnica e arte, os próprios italianos natos, conquistando o prêmio máximo do Instituto, a medalha de prata. Mas a guerra explodiu na Europa, interrompendo a carreira acadêmica de Furlanetto. Com medo do alistamento obrigatório de seus filhos, Antonio providenciou rapidamente o retorno de Fernando e Jacomo. Foram recebidos na estação com “vivas” e banda de música.

Fernando fixou atelier em sua cidade natal, no meio da Avenida Dona Gertrudes, recebendo encomendas de toda região e pasmando a imprensa local por sua simplicidade e modéstia.

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Anjo (obra no cemitério municipal de São João da Boa Vista)
Foto: Leonardo Beraldo

Considerava como sua obra-prima o monumento funerário de Dina e Angelina Bueno, “A filha chamando a mãe”, subindo os degraus do céu. Surgiram outras obras impressionantes, como a “Caridade”, para o jazigo da família do Cel. Joaquim Cândido de Oliveira; a “Pietá”, para o túmulo de José Pedro de Oliveira; e a monumental capela do Cel. Christiano Osório de Oliveira.

Fernando não se dedicou somente à arte funerária. Apesar da raridade de monumentos cívicos nas praças de São João e de cidades da região, elaborou o mais realista e expressivo retrato do venerando Padre Josué Silveira de Mattos. Sua produção sacra ficou praticamente restrita ao interior da Igreja Catedral, como a renovação dos altares laterais e um caprichoso portão para a Capela do Santíssimo.

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Pietá (obra no cemitério municipal de São João da Boa Vista)
Foto: Leonardo Beraldo

Fazendo parte do currículo de Pietrasanta, Furlanetto aventurou-se na arte de projetar edifícios, deixando monumentos de cuidadosa composição fachadista e plantas bem articuladas, como o sobrado da Família Maringolo (Avenida Dona Gertrudes), o Cine Teatro São João e a ampliação do Sobrado Westim (Praça Armando Salles). Nos três exemplares, a planta foi destaque na época: o acesso a todos os cômodos sem o uso de corredores. Nas fachadas, Furlanetto colocou seu conhecimento acadêmico para compor um repertório de ornamentos moldados em argamassa.

No plano urbanístico, o Cemitério São João Batista foi total responsabilidade dos Furlanetto, já que se tornara o depositário das mais representativas esculturas de Fernando. Ele reordenou caminhos, reforçou com meio-fios e macadames, criou alamedas de murtas como túneis do tempo.

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Anjo (obra no cemitério municipal de São João da Boa Vista)
Foto: Leonardo Beraldo

Seu grande sonho era ter mais tempo para se dedicar à “Arte Pura”, não subordinada a injunções financeiras de uma arte meramente fúnebre. As estatuetas de salão, que tanto lhe agradava compor, pouco se concretizavam. Algumas delas ainda enfeitam salas de visita. Das mais famosas, “Bailarina” é a própria música, na delicadeza dos gestos, entrelaçando-se ao vestido esvoaçante. O nu intitulado “Volúpia”, êxtase feminino no divã, foi de grande ousadia para a São João dos anos 30.

Fernando Furlanetto 1972
Fernando Furlanetto (1972)
Foto: José Marcondes

“Para mim, o mármore é um fascínio. eu não sei fazer outra coisa. A escultura tem sido a minha vida, e agora que os meus olhos já não me ajudam, sinto apenas tristeza”, disse em sua última entrevista aos 78 anos de idade.

Sua obra encaixa-se no movimento italiano “Floreale”. Movido por práticas acadêmicas através de impecáveis cópias de Antonio Canova, Fernando imprimiu os cânones da escultura grega e o realismo suave em seus retratos. Estaria apto para o movimento que surgiu após a Primeira Guerra, o “retorno à ordem”. Mas o destino interiorano não lhe permitiu circular em grandes centros, resumindo sua carreira num virtuosismo de furtivas invenções.

Ele festejou a vida. Foi estudante exemplar, entusiasta da arte em todos os campos e da música de sem violino. Apaixonado pela escultura, pela primeira esposa Lélia Ranieri, pela segunda Mercedes Beozzo, pelos filhos Antonio, Maria Lina e Ana Lúcia, pelos fiéis amigos que conquistou através do futebol, das caçadas ou simplesmente pelo jeito de ser. Não enriqueceu financeiramente.

Fernando Furlanetto faleceu em 20 de abril de 1975.

Antonio Carlos Rodrigues Lorette

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